Solteiro já há um bom tempo, povoam as minhas orações as conversas com Deus sobre uma futura esposa. Quando e como ela virá. Se virá.
Nesta noite eu me flagrei em um momento de intimidade com o Pai em que saquei algo como se fosse uma súplica que um solteiro deveria fazer sempre. A coisa saiu de maneira meio poética, então achei que valeria a pena publicar por aqui.
Súplica de um solteiro
Deus,
Não quero uma mulher para chamar de minha
Quero antes uma que você chame de sua
Que ela lhe chame simplesmente de "meu"
Pai,
Que ela não seja minha posse, mas permissão
Para enfrentar meus problemas, meu apoio
Para me lembrar de você, a solução
Senhor,
Que eu perceba que ela é privilégio
De, sendo sua, eu poder proteger
Sendo sua, eu poder amar
Deus,
Quero a alegria de José,
Que não duvidou de Maria
Nem quando engravidou de outro - um anjo
Pai,
Quero alguém que eu seja capaz de sofrer junto
Sentir as dores dela, amar amores dela
Quero alguém por quem eu possa orar
Senhor,
Que seja alguém em quem eu lhe veja
Que desperte o fogo que há em mim
Que caminhe comigo até o fim
quarta-feira, 10 de março de 2010
domingo, 7 de março de 2010
Salvador
Olho pro verde do mar
Quando vou te adorar
Brisa põe no coração
Um novo batucar
É na levada da onda
Que eu sinto a brisa soprar
Porque de todos é o vento
De todos é o mar
Meu Deus não é pra poucos
Meu Deus é para o povo
Rico, Ele se fez pobre
Desceu e virou povo
Quando vou te adorar
Brisa põe no coração
Um novo batucar
É na levada da onda
Que eu sinto a brisa soprar
Porque de todos é o vento
De todos é o mar
Meu Deus não é pra poucos
Meu Deus é para o povo
Rico, Ele se fez pobre
Desceu e virou povo
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Conto da Cripta: Descobertas
Eu tinha 12 anos quando dei o meu primeiro beijo. Era uma menina mais velha. Filha do pastor, 14 anos, Luana. Cresci, fiquei muito mais próximo da igreja do que ela, que na semana passada se declarou homossexual. Fiquei sabendo hoje.
Por um instante pensei: "acho que não fui um bom primeiro beijo". Num segundo momento: "Nem a pau que fui o primeiro beijo dela". Uns 15 minutos depois disto: "Será que estou sendo homofóbico? Não, não. Ela chegou a me dizer que já tinha beijado outros garotos".
No fim das contas, sou só um gordinho inseguro.
Pego o telefone e ligo para ela. "Você já deve saber o que penso sobre homossexualidade. Não vou falar sobre isso. Quero apenas dizer que Deus te ama, embora não aprove tudo que você faz. Quero dizer que estou disponível para conversar e continuo seu amigo".
Fui o único a ligar até agora. Nem o pai telefonou. Como sou ridículo. Fico tentando mudar a religião, coisa que nem Jesus conseguiu ou mesmo tentou fazer.
*Os Contos da Cripta deste blog são histórias fictícias de gente que está tentando morrer um pouquinho para que Cristo viva. É ficção, mas pode acontecer com qualquer um.
Por um instante pensei: "acho que não fui um bom primeiro beijo". Num segundo momento: "Nem a pau que fui o primeiro beijo dela". Uns 15 minutos depois disto: "Será que estou sendo homofóbico? Não, não. Ela chegou a me dizer que já tinha beijado outros garotos".
No fim das contas, sou só um gordinho inseguro.
Pego o telefone e ligo para ela. "Você já deve saber o que penso sobre homossexualidade. Não vou falar sobre isso. Quero apenas dizer que Deus te ama, embora não aprove tudo que você faz. Quero dizer que estou disponível para conversar e continuo seu amigo".
Fui o único a ligar até agora. Nem o pai telefonou. Como sou ridículo. Fico tentando mudar a religião, coisa que nem Jesus conseguiu ou mesmo tentou fazer.
Conto inspirado na família do Rei Davi e na vida de Esera Tuaolo, jogador da NFL que assumiu sua homossexualidade ao se aposentar. Tuaolo só recebeu ligação de um ex-colega na ocasião. Craig Sauer, cristão, disse de forma exemplar: "Você sabe que eu discordo da sua posição, mas você é como meu irmão. Se você é capaz de aguentar saber que vivemos discordando, ainda seremos amigos"
*Os Contos da Cripta deste blog são histórias fictícias de gente que está tentando morrer um pouquinho para que Cristo viva. É ficção, mas pode acontecer com qualquer um.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Poema: Maconha Santificada
Talvez o que eu escrevi abaixo escandalize alguém. Peço a estes que se escandalizem com o que merece, de fato, nosso repúdio. O poema é inspirado em artigo do Rev. Digão, publicado no Genizah.
Maconha santificada
Vamos todos nos dopar
Nosso mestre-traficante
Seu nome idolatrar
Se na Graça a gente pisa
Nosso ópio a mente frisa
Sacerdotisa: grana e cobiça
Vamos nos alienar
Porque o ungido do Sinhô
Chegou pra abençoar
Vamos nos amordaçar
Calar, cegar
E o Evangelho achincalhar
Quem precisa de cruz?
Ou de humildade?
Sou filho do Rei
Já ganhei prosperidade
Restitui,
Quero de volta o que é meu
O barato tá passando, adeus!
E finalmente caio em mim
De direito meu: só fogo eterno
Sou mais um indo para o inferno
Maconha santificada
Vamos todos nos dopar
Nosso mestre-traficante
Seu nome idolatrar
Se na Graça a gente pisa
Nosso ópio a mente frisa
Sacerdotisa: grana e cobiça
Vamos nos alienar
Porque o ungido do Sinhô
Chegou pra abençoar
Vamos nos amordaçar
Calar, cegar
E o Evangelho achincalhar
Quem precisa de cruz?
Ou de humildade?
Sou filho do Rei
Já ganhei prosperidade
Restitui,
Quero de volta o que é meu
O barato tá passando, adeus!
E finalmente caio em mim
De direito meu: só fogo eterno
Sou mais um indo para o inferno
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Conto da Cripta: O taxista e o carpinteiro
Uma obra de carpintaria dependurada no meu retrovisor. E quando olho a imagem refletida nele, enxergo a carpintaria humana em ação. Ninguém imagina a cidade que se vê do meu táxi.
É um amontoado de realidade. Ninguém imagina o que se ouve dentro de um táxi. São as visões da realidade.
Nossa conversa também toma um rumo alternativo. Quando pergunto a ele porque resolveu trabalhar com contabilidade, ele me responde que não sabe. Achava que poderia ganhar algum dinheiro e usar números, mas sem as complicações da engenharia.
Decido moldar um pouco do caráter deste moço. Uns 15 minutos para chegarmos ao destino. Pergunto a ele o que o faz chorar. Ele não sabe responder. Eu digo que uma mão acostumada a pregar chora toda vez que é pregada. Digo que só vai saber direito o que quer da vida quando descobrir aquilo que o faz chorar.
Pessoas precisam de gente para conversar. A solidão me faz chorar. Por isso, sou um ótimo taxista. Meu carro nunca está vazio.
Um homem inteligente com a mão no volante, depois de uns 15 anos de profissão, vira um dos homens mais sábios da Terra. Porque vê a Terra o dia todo. E porque ouve o que pensam dela o dia todo. E no fim, acho que tudo se resume à tarefa de carpintaria. Por isso, sempre carrego o carpinteiro no meu carro.
Conto inspirado na música "Daqui pro Méier", de Ed Motta.
*Os Contos da Cripta deste blog são histórias fictícias de gente que está tentando morrer um pouquinho para que Cristo viva. É ficção, mas pode acontecer com qualquer um.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Contos da Cripta: Dependente da correria
No meio da correria, só sei que a gravata vou colocando no caminho entre o estacionamento e o escritório. No meio da correria, tudo é coisa e nada é gente. Tudo é fato e nada é história. Tudo é informação e nada é poesia. E hoje é dia de relatório.
Em dias de relatório, coisas são descartáveis, a menos que sirvam para cumprir a meta estipulada. Em dia de relatório, tudo é coisa e nada é conceito. Tudo é produção e nada é pensamento.
Avanço na rua, atravesso na faixa, pé na calçada, cigarro na boca, para jogar fora a bituca antes de entrar no prédio. O mau cheiro, contudo, não vem do meu vício. Olho para baixo e vejo o primeiro sinal de humanidade do meu dia. Um homem de mãos abertas, esperando meu dinheiro.
Minha vontade é apagar o cigarro ali. A dependência é desprezível. Vivo por mim, e talvez um pouco de dor ensine aquele mendigo mal-cheiroso a viver por si. Num mundo não muito maravilhoso, mas realista, em que tudo é coisa e nada é gente.
Passa uma garota de uns 15 anos. Diz que é uma pena que um homem bonito como eu jogue a minha beleza fora ao colocar um cigarro na boca. Pega o mendigo pela mão. “A sua beleza é difícil de ver, não é?”, ela diz.
Nas mãos da garota um chiclete, um panfleto. No fim das contas, sou eu o dependente.
*Os Contos da Cripta deste blog são histórias fictícias de gente que está tentando morrer um pouquinho para que Cristo viva. É ficção, mas pode acontecer com qualquer um.
Em dias de relatório, coisas são descartáveis, a menos que sirvam para cumprir a meta estipulada. Em dia de relatório, tudo é coisa e nada é conceito. Tudo é produção e nada é pensamento.
Avanço na rua, atravesso na faixa, pé na calçada, cigarro na boca, para jogar fora a bituca antes de entrar no prédio. O mau cheiro, contudo, não vem do meu vício. Olho para baixo e vejo o primeiro sinal de humanidade do meu dia. Um homem de mãos abertas, esperando meu dinheiro.
Minha vontade é apagar o cigarro ali. A dependência é desprezível. Vivo por mim, e talvez um pouco de dor ensine aquele mendigo mal-cheiroso a viver por si. Num mundo não muito maravilhoso, mas realista, em que tudo é coisa e nada é gente.
Passa uma garota de uns 15 anos. Diz que é uma pena que um homem bonito como eu jogue a minha beleza fora ao colocar um cigarro na boca. Pega o mendigo pela mão. “A sua beleza é difícil de ver, não é?”, ela diz.
Nas mãos da garota um chiclete, um panfleto. No fim das contas, sou eu o dependente.
Conto inspirado no nosso apreciável modo de viver paulistano, na parábola do bom samaritano e no poema "Cada Coisa" de Fernando Pessoa.
*Os Contos da Cripta deste blog são histórias fictícias de gente que está tentando morrer um pouquinho para que Cristo viva. É ficção, mas pode acontecer com qualquer um.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Poema: Como quem sonha

Como quem sonha (por Victor Fontana)
Fiquei como quem sonha
Quando se estenderam teus braços
Como quem sonha
Quando restaurados os laços
Olho ao meu redor
Enxergo escuridão
Olho pro final
Vejo um lampião
Embaixo da cama
Não há lamparina
Só há cidadela
Em cima da colina
Como quem sonha
Anunciação
Como quem sonha
Libertação
Como quem sonha
Consumação
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